8.14.2011
Promoção de Dia dos Pais
Ontem estive no shopping para ir ao cinema. Quando estava na fila da Tim para pagar por um serviço, eu vi um acrílico com alguns panfletos sobre uma promoção de Dia dos Pais.
O título dizia assim:
Quer ganhar uma TV 3D para curtir com o seu pai?
Responda por que sua história com seu pai daria um filme. A resposta mais criativa ganhará a TV.
Sabe quando em segundos você sai de um contexto chato de fila de operadora de celular para entrar em outro que te jura que a sua história que nunca aconteceu daria o melhor de todos os filmes?
Pois foi exatamente isso que aconteceu. Veio na minha cabeça uma vontade incontrolável de responder essa pergunta e colocá-la na urna mais próxima. Eu não me dei conta que, de repente, a história tivesse que ser interessante e cheia de grandes emoções... Veio na minha cabeça poucas lembranças do que realmente existiu da convivência com este parentesco, poucas e bem distante.
Lembro de momentos de mamadeira, que conta a minha mãe que eu só conseguia dormir quando ele cantava alguma música pra mim, porque assim eu sentia a segurança necessária para me deixar levar pelo sono...
Uma vez minha mãe me acordou de madrugada e colocou um pijama rosa da Hello Kitty em mim e partimos para o aeroporto, íamos pro Rio. Lá dentro, eu gritava e batia na porta pedindo para abrir pra eu ver o meu pai. Claro, atrasei a decolagem de tão histérica que eu fiquei. Não me lembro de ter feito isso por nenhum namorado...
Uma vez eu e meus irmãos insistimos comprar umas pelúcias que estavam expostas para venda na vitrine de um restaurante de estrada, e chegou um determinado momento que o “não” não foi suficiente, ou seja, PISA. Levamos, os três. Eu sou a que lembro menos da dor, porque era a menor...
A separação
Isso aconteceu quando eu tinha 3 anos. E juro, eu me lembro do rosto dele naquela manhã, ainda molhado do banho. Aquele semblante era totalmente diferente de todas as outras manhãs. Eu era quase que ainda um bebê, mas eu sabia naquele momento que ele não voltaria mais.
Depois disso, lembro bem meus irmãos se recusando a ir passar os finais de semana com ele, e eu, sempre tão emotiva e altruísta, não deixava transparecer essa indiferença e acabava indo, mesmo que sozinha, para que ele não se sentisse rejeitado pelos seus filhos.
Não imagino que seja fácil para uma mãe se separar de alguém que, com ela, produziu as coisas mais preciosas de sua vida. Porque as mães vivem dizendo isso, né... Como se somente os pais tivessem direito de sentir que somos pedacinhos deles, e nunca o contrário. Eles dizem que se morrêssemos eles morreriam também, mas não entendem que muitas vezes um filho cresce se sentindo meio morto por não ter um deles por perto. Eles pensam que são eles que reorganizam sozinhos nossa estrutura psicológica para essa grande mudança, não sabem esses pobres adultos que somos nós, que diariamente arrumamos um jeitinho de esquecer certas coisas importantes para sofrermos menos.
Já não é fácil ser filha de pais separados, mas pode ser ainda mais difícil quando:
Cada vez que você vê o pai da sua amiga indo busca-la no colégio, e o seu, nunca aparece lá e em nenhuma outra ocasião;
Quando você queria muito ter alguém para consertar aquela coisa sua que parece que quebrou;
Quando você chega em casa triste com seu namorado e não tem aquele homem que “jamais permitiria ver sua filha chorar”, para dar uma broncona no safado depois;
Quando você queria saber de onde vem certas características suas que definitivamente não são de sua mãe;
Quando você pensa em casar na igreja e queria te-lo ali do lado, feliz, mas também triste por perder a convivência com sua filha e amedrontado com a possibilidade dela vir a sofrer...
Quando, entre inúmeras coisas que não citei aqui, chega o dia “Dele” e ele está longe, sendo o prestigiado de uma outra família.
Eu simplesmente achei que aquela pergunta era pra mim, então eu queria a todo custo ter a chance de respondê-la. Não me importava muito o prêmio final, porque na verdade ter falado sobre esse assunto já era um presente libertador, e o valor disso é muito maior que todas as TVs de última geração com seus 3, 4 ou 5 Dês. Eu cheguei a pensar também que talvez contando essa história, eu poderia ter uma chance de ganhar. E talvez ganhando a TV eu ganhasse também o pretexto de tentar uma reaproximação...
Não sei se são todos os pais gostariam de estar próximos dos filhos dos seus casamentos fracassados, mas posso apostar que todos gostariam de uma TV 3D.
( O anúncio da promoção pediu a resposta mais criativa. “Criativa” não significa que tenha que ser alegre. E que o final da história desse filme tenha que ser feliz).
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